*José Ricardo Porto.
A cada eleição nacional, especialmente nos últimos anos, ressurgem manifestações de intolerância contra o Nordeste e contra as escolhas eleitorais de seu povo. São agressões verbais, comentários depreciativos e demonstrações de preconceito que ultrapassam os limites da divergência democrática e atingem a dignidade de milhões de brasileiros.
É lamentável que uma região tão importante para a formação histórica, cultural e social do Brasil seja alvo de hostilidade simplesmente porque seus eleitores exerceram livremente o direito de votar.
O Nordeste é terra de inteligência, cultura, trabalho, coragem e resistência. Sua contribuição à construção da identidade nacional é imensa. Mas essa afirmação não pretende estabelecer qualquer superioridade regional. O Brasil é igualmente engrandecido pelo Norte, pelo Sul, pelo Sudeste e pelo Centro-Oeste, cada qual com suas riquezas, tradições e extraordinárias contribuições.
Defender o respeito ao Nordeste não significa diminuir qualquer outra região. Significa defender o respeito ao Brasil inteiro.
A democracia não admite cidadãos de primeira e de segunda categoria. O voto do nordestino possui exatamente a mesma dignidade e legitimidade que o voto de qualquer outro brasileiro.
Nenhuma frustração eleitoral, por maior que seja, autoriza alguém a ofender, humilhar ou manifestar preconceito contra um povo, muito menos a dirigir sua intolerância contra uma região inteira.
Quem respeita a democracia precisa compreender que a vontade popular não pode ser respeitada apenas quando coincide com nossas próprias preferências.
Discordar é legítimo. Criticar é necessário. Debater é saudável. Mas transformar divergências em agressões pessoais ou preconceitos regionais representa uma preocupante deterioração da convivência democrática.
Há, entretanto, outro aspecto que merece reflexão.
Vivemos uma época em que algumas pessoas ofendem, humilham, atacam reputações e até ridicularizam comunidades inteiras. Depois, quando suas palavras provocam indignação pública, surgem as conhecidas retratações.
“Não foi isso que eu quis dizer.” “Fui mal interpretado.” “Quem me conhece sabe que não sou assim.” “Peço desculpas.”
Mas será que não era exatamente aquilo que se pretendia dizer?
Existe uma diferença profunda entre pedir desculpas porque se reconheceu uma injustiça e pedir desculpas porque essa injustiça se tornou pública, provocando consequências desagradáveis para quem a praticou.
Uma coisa é lamentar a dor que causamos aos outros. Outra, muito diferente, é lamentar o prejuízo que nossas próprias palavras causaram a nós mesmos.
No primeiro caso, manifesta-se o arrependimento. No segundo, pode existir apenas conveniência.
Nem toda retratação representa uma mudança de pensamento. Alguém pode continuar alimentando o mesmo preconceito, conservando intimamente as mesmas convicções ofensivas, embora passe a negá-las publicamente para preservar sua imagem.
Nesse caso, não houve necessariamente uma transformação de consciência. Houve apenas uma mudança de discurso.
É evidente que todos estamos sujeitos a erros. O reconhecimento sincero de uma falta é uma virtude. Pedir perdão exige humildade, assim como perdoar constitui uma das mais nobres manifestações da grandeza humana.
Entretanto, o arrependimento verdadeiro não se mede apenas pelas palavras pronunciadas diante das câmeras ou pelas notas cuidadosamente elaboradas depois de uma repercussão negativa.
Mede-se, principalmente, pela consciência do erro, pela disposição de reparar o dano e pela mudança de comportamento.
Quem verdadeiramente se arrepende não procura apenas recuperar a própria imagem. Procura, antes de tudo, reparar a dignidade de quem foi ofendido.
A liberdade de expressão, conquista indispensável da democracia, não dispensa responsabilidade. Nenhuma divergência autoriza a humilhação de uma pessoa ou o desprezo por uma região inteira.
O respeito não pode depender da concordância.
Precisamos recuperar a prudência no uso das palavras. Pensar antes de falar não significa renunciar à liberdade. Significa exercê-la com educação, discernimento e responsabilidade.
A palavra pronunciada não retorna ao silêncio de onde saiu. Pode ser explicada, corrigida e até perdoada, mas não pode ser considerada inexistente.
A verdadeira educação não consiste apenas em saber pedir desculpas depois de ofender. Consiste, sobretudo, em possuir sensibilidade suficiente para evitar a ofensa.
Não basta retirar as palavras ofensivas quando elas provocam indignação. É preciso retirar da consciência o preconceito que lhes deu origem.
Muitas retratações surgem somente depois que a ofensa ganha repercussão, desperta a indignação coletiva e provoca um clamor público que leva seu autor a pedir desculpas. Mas a pressão da sociedade, embora legítima diante da injustiça, não é capaz, por si só, de produzir uma transformação interior.
O verdadeiro arrependimento é diferente. Nasce do reconhecimento sincero da injustiça praticada, da compreensão da dor causada e do desejo de reparar a ofensa.
Jesus Cristo, em seus ensinamentos sobre o perdão, a humildade e o amor ao próximo, deixou uma lição que atravessa os séculos: a verdadeira transformação humana não se limita às aparências, mas começa no coração e se revela nas atitudes.
Afinal, o clamor público pode levar alguém a se retratar, mas somente a consciência da injustiça cometida pode conduzir ao verdadeiro arrependimento.
Porque pedir desculpas é um ato de palavras. Arrepender-se verdadeiramente é um ato de consciência.
*Desembargador do Tribunal de Justiça da Paraíba


