O Incra na Paraíba (Incra/PB) formalizou, na terça-feira (16), a autorização de uso da Capela São Sebastião, no Assentamento Mandacaru, localizado no município de Sumé, em favor da Diocese de Campina Grande. O espaço poderá ser utilizado pela Paróquia Nossa Senhora da Conceição para celebrações religiosas, atividades de catequese, ações comunitárias e iniciativas de preservação e manutenção do patrimônio histórico.
A solenidade, realizada no assentamento, reuniu representantes do Incra, da Igreja Católica, da Procuradoria-Geral Federal (PGF), do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), da Prefeitura de Sumé, de movimentos sociais, além de lideranças locais e moradores do assentamento.
Resultado de uma articulação institucional envolvendo o Incra, a Paróquia Nossa Senhora da Conceição, a Procuradoria Federal no Estado da Paraíba e a Prefeitura de Sumé, a iniciativa representa um importante avanço para a preservação de um bem de reconhecida relevância cultural, histórica e religiosa para a região do Cariri paraibano.

Localizada na antiga Fazenda Feijão, atual Assentamento Mandacaru, criado em 1999 pelo Incra, a Capela São Sebastião é considerada uma referência da memória e da religiosidade local. Com a autorização de uso, o imóvel passa a contar com uma estrutura de gestão que permitirá sua utilização regular, além de facilitar ações de conservação, manutenção e futuras intervenções de restauração da capela, que apresenta desabamento parcial do teto interno.
A vinculação da capela à paróquia também deve favorecer a mobilização de voluntários e parceiros interessados na preservação do patrimônio, além de fortalecer atividades religiosas, culturais e sociais voltadas aos moradores do assentamento e das comunidades vizinhas.
“Temos tudo para crescer enquanto comunidade porque temos muitos jovens e crianças no assentamento. A igreja tem seu papel social também. Nós também queremos oferecer algo para eles, além do espiritual, da fé, como parcerias para a construção de cisternas, algo que a gente puder conseguir para a comunidade”, afirmou o pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, em Sumé, padre José Marcondes, representante da Diocese de Campina Grande.
O religioso disse ainda que pretende conseguir meios para resolver uma infiltração no telhado que provocou o desabamento de parte do forro interno do teto da capela. “Que em janeiro já possamos comemorar o dia de São Sebastião aqui na capela, como deve ser comemorado”, acrescentou o padre José Marcondes.
O prefeito de Sumé, Manezinho Lourenço, prometeu recursos para a revitalização da capela e disse que as ruas das quatro agrovilas que formam o assentamento receberão calçamento em paralelepípedos. As obras em duas das agrovilas já foram iniciadas.

Para o superintendente do Incra/PB, Antônio Barbosa Filho, a entrega do contrato de autorização de uso reforça o compromisso do Incra com a valorização dos espaços comunitários existentes nos assentamentos da reforma agrária. “A iniciativa demonstra que a política de reforma agrária pode caminhar lado a lado com a preservação da memória, da cultura e do patrimônio histórico das áreas rurais, contribuindo para o desenvolvimento local e para o fortalecimento dos laços comunitários”, afirmou.
O procurador federal Omar Bradley, que atua na área de patrimônio histórico da Procuradoria Regional Federal da 5ª Região, disse que “ficou encantado” quando conheceu a capela e ressaltou que a experiência demonstra a possibilidade de conciliar diferentes políticas públicas em benefício da população.
“A atuação coordenada entre os órgãos públicos e as instituições da comunidade demonstra que é possível conciliar a política de reforma agrária com a preservação de referências culturais e religiosas de grande significado para a população, produzindo resultados concretos em benefício das presentes e futuras gerações”, destacou.
Para a presidente da associação do Assentamento Mandacaru, Josineide Oliveira da Silva, o momento é de alegria e de realização de um sonho para as famílias agricultoras.

Valor artístico e histórico
Além de sua importância religiosa, a Capela São Sebastião possui relevante valor artístico e histórico. O imóvel abriga pinturas sacras de Miguel Guilherme dos Santos (1902-1995), artista de destaque no cenário regional, cuja obra integra o patrimônio cultural de diversas igrejas e capelas da Paraíba e de Pernambuco, com destaque para pinturas sacras, esculturas e painéis que retratam a história, a cultura e a religiosidade do povo sertanejo.
Miguel Guilherme foi um dos mais importantes artistas do Cariri paraibano. Natural de Sumé, desenvolveu de forma autodidata uma trajetória marcada pela atuação como pintor, escultor, construtor, fotógrafo, desenhista, teatrólogo e poeta.
Reconhecido como um dos principais nomes da arte regional, Miguel Guilherme participou da construção e ornamentação de igrejas, produziu obras de valor histórico e artístico e ajudou a preservar a memória do Cariri por meio de seu trabalho. Entre seus legados estão as pinturas da Igreja Matriz de Monteiro, o painel “Herói Anônimo”, tombado pelo patrimônio estadual, e as obras existentes na Capela São Sebastião. Seu talento e compromisso com a identidade cultural nordestina transformaram sua produção artística em um importante patrimônio da memória paraibana.
Representantes
A solenidade reuniu o pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, em Sumé, padre José Marcondes Neves, representante da Diocese de Campina Grande; o prefeito de Sumé, Manezinho Lourenço; representantes do Poder Legislativo municipal; o superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) na Paraíba, Jivago Correia Barbosa; e o procurador federal Omar Bradley Pereira de Sousa, integrante da área de patrimônio cultural da Procuradoria Regional Federal da 5ª Região, além de lideranças locais, moradores do Assentamento Mandacaru e representantes de instituições parceiras.

