Mais de 56 milhões de pessoas necessitam de cuidados paliativos todos os anos no mundo, segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS). Apesar da alta demanda, apenas cerca de 14% dos pacientes conseguem ter acesso a esse tipo de assistência, considerada fundamental para o controle da dor, alívio do sofrimento e promoção da qualidade de vida em doenças graves e crônicas. Os dados integram levantamento divulgado pela OMS e pela Worldwide Hospice Palliative Care Alliance (WHPCA).
Em João Pessoa, o Hospital São Vicente de Paulo (HSVP) — segunda referência em oncologia da capital e referência estadual em hemodiálise e cirurgia vascular — vem fortalecendo essa linha de cuidado dentro da assistência prestada aos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS).
A unidade dispõe de equipe estruturada de cuidados paliativos com atuação integrada na urgência e emergência, enfermarias, Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e ambulatório especializado.
Segundo o diretor clínico do HSVP e médico paliativista, Matheus Soares, ainda existe um entendimento equivocado sobre o cuidado paliativo, frequentemente associado apenas ao fim da vida.
“O cuidado paliativo não significa desistir do tratamento. Ele pode começar desde o diagnóstico de uma doença ameaçadora à vida, funcionando em paralelo ao tratamento curativo para controlar sintomas, reduzir sofrimento e melhorar a qualidade de vida do paciente”, explica.
O especialista destaca que estudos recentes apresentados na ASCO — considerado o maior congresso de oncologia do mundo — mostram que a introdução precoce do cuidado paliativo pode impactar positivamente não apenas no conforto do paciente, mas também na sobrevida.
“O paciente consegue viver melhor e, em muitos casos, por mais tempo, quando existe uma abordagem voltada também para o sofrimento físico, emocional, social e espiritual”, afirma.
No Hospital São Vicente, o cuidado paliativo atua integrado às equipes assistenciais e acompanha pacientes oncológicos e pessoas com doenças crônicas complexas ao longo de diferentes etapas do tratamento.
De acordo com Dr. Matheus Soares, o foco não está apenas na doença, mas em como ela impacta a vida do paciente e da família. “O sofrimento não é só físico. Existe sofrimento emocional, social e espiritual. O cuidado paliativo busca acessar todas essas dimensões para construir um plano terapêutico baseado em dignidade, conforto e qualidade de vida”, ressalta.
Entre os principais sintomas enfrentados pelos pacientes está a dor, considerada um dos maiores desafios dentro da assistência paliativa. O médico explica que o controle adequado da dor é uma das prioridades da equipe, utilizando protocolos específicos e medicações analgésicas modernas.
Além do suporte clínico, a assistência envolve psicologia, suporte social e acolhimento familiar.
“A família também sofre junto. Muitas vezes, o cuidado paliativo ajuda não apenas o paciente, mas toda a estrutura familiar a enfrentar esse processo de forma mais humanizada”, pontua. Um dos diferenciais do Hospital São Vicente é a presença da equipe paliativista em diferentes setores da unidade.
O ambulatório de cuidados paliativos da instituição funciona desde 2019, oferecendo acompanhamento especializado a pacientes com doenças crônicas e ameaçadoras à vida. Já os pareceres paliativos hospitalares — quando a equipe especializada é acionada para avaliar pacientes internados em diferentes setores — passaram a ser ampliados a partir do segundo semestre do ano passado, fortalecendo a integração do cuidado paliativo dentro da assistência hospitalar.
Segundo Dr. Matheus Soares, esse avanço permitiu ampliar a presença da equipe em diferentes etapas da jornada do paciente dentro do hospital.“O paciente não fica desassistido. O cuidado paliativo acompanha toda a trajetória desse adoecimento, ajudando no controle de sintomas, na tomada de decisões e na preservação da qualidade de vida”, destaca.
O hospital também vem investindo na capacitação interna de profissionais de saúde para fortalecer uma cultura de assistência humanizada e ampliar o entendimento sobre a importância dos cuidados paliativos dentro da rede hospitalar.
Apesar dos avanços, o especialista afirma que o maior desafio ainda é combater o preconceito e a desinformação sobre o tema. “Muitas pessoas escutam ‘cuidados paliativos’ e associam imediatamente à morte. Mas estamos falando de cuidado, acolhimento e qualidade de vida. É uma assistência que deve começar cedo, e não apenas quando não há mais possibilidades terapêuticas”, conclui.

