Com 34,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, envelhecimento da população amplia participação econômica e desafia empresas a pensar produtos e serviços para vidas mais longas
O Brasil está envelhecendo em ritmo acelerado, e essa transformação já começa a alterar a economia. Entre 2012 e 2024, a população com 60 anos ou mais passou de 22 milhões para 34,1 milhões de pessoas, segundo o IBGE. A tendência deve se intensificar nas próximas décadas: a proporção de brasileiros nessa faixa etária, que era de 15,6% em 2023, pode chegar a 37,8% em 2070.
O impacto vai muito além dos sistemas de saúde e previdência. Uma população que vive mais também trabalha por mais tempo, sustenta famílias, consome, poupa, investe e demanda novas soluções em áreas como tecnologia, habitação, turismo, educação e serviços. É nesse contexto que ganha espaço o conceito de economia da longevidade, usado para descrever as mudanças provocadas por vidas mais longas sobre diferentes setores da sociedade.
Um estudo lançado em 2026 pela FGV EAESP em parceria com o Itaú Viver Mais reforça esse protagonismo econômico. O levantamento mostra que pessoas com 60 anos ou mais já respondem por aproximadamente 25% da renda dos lares brasileiros e são as principais responsáveis financeiras em cerca de 27% dos domicílios. Ao mesmo tempo, o próprio estudo alerta que esse grupo é diverso e ainda convive com desigualdades, vulnerabilidade financeira e diferentes níveis de acesso à tecnologia e aos serviços.
Quando o recorte é ampliado para a população com 50 anos ou mais, o peso sobre o consumo também chama atenção. Pesquisa do Data8 estima que esse público movimentou R$ 1,8 trilhão em consumo privado em 2024, equivalente a 24% do total nacional. A projeção é chegar a R$ 3,8 trilhões em 2044, ou 35% do consumo privado do país.
Viver mais também altera o planejamento financeiro. Se a aposentadoria pode se estender por duas ou três décadas, temas como previdência, poupança, patrimônio e educação financeira ganham peso ao longo de toda a vida. O estudo da FGV EAESP e Itaú Viver Mais aponta ainda que cerca de 70% dos idosos brasileiros não possuem literacia financeira, o que pode aumentar a vulnerabilidade a golpes, fraudes e decisões econômicas pouco informadas.
Mais do que um mercado para idosos
Para empresas, a adaptação à longevidade não significa apenas criar produtos direcionados a uma faixa etária específica. Uma pessoa com pouco mais de 60 anos, ainda ativa no mercado de trabalho e com autonomia financeira, pode ter necessidades completamente diferentes das de alguém com mais de 80 anos que depende de apoio cotidiano.
Essa diversidade exige uma leitura mais ampla sobre hábitos, autonomia, renda, relações familiares e expectativas em cada fase da vida. Tecnologia, saúde, moradia, turismo, educação e serviços financeiros estão entre os segmentos que tendem a sentir cada vez mais os efeitos dessa mudança demográfica.
“Quando se fala em longevidade, ainda existe uma tendência de pensar apenas em produtos voltados para pessoas idosas. Mas a transformação é muito mais ampla. Estamos falando de pessoas que permanecem ativas por mais tempo, trabalham, consomem, cuidam de suas famílias, aprendem e constroem novos projetos em diferentes fases da vida. Para as empresas, o desafio é compreender essas trajetórias e desenvolver serviços e experiências que façam sentido para vidas cada vez mais longas”, afirma Eliza Fonseca, gerente de Marketing do Grupo Morada.
A economia da longevidade, portanto, não se resume ao surgimento de um novo nicho consumidor. À medida que a população envelhece, cresce também a necessidade de repensar trabalho, planejamento financeiro, produtos e serviços para uma sociedade em que viver mais deixa de ser exceção e passa a redefinir a própria organização econômica.

