Cremação, joias memoriais, urnas personalizadas e outras formas de homenagem refletem a transformação na relação entre famílias e animais de companhia
Para muitas famílias, a despedida de um animal de estimação representa o encerramento de uma relação construída ao longo de anos, marcada por convivência e afeto. De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet), em 2023, o Brasil registrava 160,9 milhões de animais de estimação, entre cães, gatos, aves, peixes e pequenos animais.
Além disso, uma pesquisa publicada pela Universidade de São Paulo (USP) sobre famílias, animais de estimação e consumo observa que a presença dos pets nas famílias está associada a vínculos afetivos genuínos e a um processo de humanização da relação entre pessoas e animais. À medida que os pets ocupam um espaço cada vez mais significativo nos lares, também ganha relevância a busca por formas mais cuidadosas e personalizadas de lidar com a morte desses companheiros.
Essa transformação não termina com a morte do animal. Ela também aparece na maneira como os tutores desejam se despedir e preservar a memória de seus companheiros. É nesse contexto que serviços funerários especializados passam a incorporar uma abordagem mais individualizada, que pode incluir cremação individual, cerimônias de despedida, urnas personalizadas, espaços de memória, certificados, lembranças, joias memoriais e outros objetos que ajudam a manter viva a lembrança do animal.
O luto pelo animal é uma experiência real
Do ponto de vista psicológico, a perda de um animal de companhia pode desencadear um processo de luto significativo. Pesquisas identificam relatos frequentes de solidão, constrangimento e sensação de que o sofrimento não é plenamente reconhecido socialmente. Entre as estratégias de enfrentamento observadas estão o apoio social, a criação de formas de memorialização e a manutenção de vínculos simbólicos com o animal.
“O luto pela perda de um animal de companhia deve ser compreendido pelo significado que aquela relação tinha para a pessoa. Para algumas famílias, aquele animal fazia parte da rotina, oferecia companhia e estava presente em diferentes momentos da vida. Por isso, a despedida pode mobilizar emoções profundas e precisa ser respeitada em seu tempo e em sua singularidade”, esclarece Simône Lira, psicóloga do Morada da Paz.
A humanização dos serviços funerários para pets acompanha, portanto, uma mudança na própria expectativa dos cuidadores. Em vez de enxergar a despedida apenas como uma etapa operacional após a morte, cresce a percepção de que esse momento pode ser conduzido com acolhimento, respeito e atenção às necessidades emocionais da família.
A cremação pet, por exemplo, permite que a família escolha entre diferentes modalidades de despedida, conforme a disponibilidade do serviço e sua preferência. Na cremação individual, as cinzas podem ser posteriormente destinadas a uma urna ou a outras formas de memorialização. Já as joias memoriais podem transformar uma pequena quantidade das cinzas, quando tecnicamente possível, em uma lembrança que permanece próxima do tutor.
Também podem fazer parte desse processo urnas personalizadas, placas, fotografias, certificados, caixas de memória e outros elementos que ajudem a registrar a trajetória do animal. Mais do que objetos, essas alternativas podem representar maneiras simbólicas de elaborar a despedida e preservar lembranças importantes.
“Ter um ritual de despedida pode ajudar algumas pessoas a reconhecer concretamente que uma etapa terminou e que uma relação muito importante existiu. Não existe uma maneira única ou correta de viver o luto. Para algumas pessoas, guardar as cinzas, ter uma joia memorial, fazer uma cerimônia ou preservar fotografias pode fazer sentido; para outras, o processo será diferente. O mais importante é que a escolha respeite a história daquela família e o significado que o animal teve em sua vida”, explica a psicóloga.

