‘Naquela Mesa’: canção com mais de 50 anos continua embalando a saudade de pais que já partiram

Especialista explica como a arte pode auxiliar na elaboração do luto e porque composição segue emocionando diferentes gerações

Com a proximidade do Dia dos Pais, uma canção ganha destaque nas rádios e serviços de streaming, “Naquela Mesa”, composta por Sérgio Bittencourt em homenagem ao pai, é um clássico que descreve a profundidade da saudade quando um filho perde a figura paterna. Lançada no início da década de 1970, a música transformou uma dor íntima em um dos maiores hinos sobre a ausência.

Sérgio Bittencourt escreveu a canção pouco tempo após a morte do próprio pai, Jacob do Bandolim, um dos maiores nomes do choro brasileiro. Ao descrever a cadeira vazia, a mesa incompleta e a rotina transformada pela ausência, o compositor traduziu sentimentos vivenciados por milhares de famílias.

Segundo a psicóloga Simône Lira, especialista em luto do Morada da Paz, a identificação com essa canção permanece tão presente porque a música aborda experiências comuns a quem perdeu uma figura tão importante.

“O luto é um processo contínuo, que não acaba no momento da despedida. Ele se manifesta nas pequenas ausências do cotidiano: no lugar vazio à mesa, em uma conversa que não acontecerá novamente ou em uma data comemorativa que passa a ter outro significado. A música consegue dar nome e forma a sentimentos que muitas vezes são difíceis de expressar”, explica Simône.

Mais de cinco décadas após sua criação, “Naquela Mesa” continua presente em homenagens, apresentações musicais, redes sociais e cerimônias de despedida. Sua permanência demonstra que algumas experiências humanas atravessam gerações e encontram na arte uma forma de permanecer vivas.

“A arte cria espaços de identificação. Quando percebemos que outra pessoa conseguiu transformar sua dor em poesia ou música, entendemos que não estamos sozinhos. Isso ajuda a validar sentimentos e ajuda a viver o luto de uma forma mais saudável”, destaca a psicóloga.

O Dia dos Pais costuma ser uma data difícil para os filhos que perderam a figura paterna, mas Simône explica que é importante celebrar o legado e manter as memórias de quem partiu vivas. “Compartilhar histórias, olhar fotografias ou ouvir uma música significativa são formas de manter viva a memória daquela pessoa. O amor não desaparece com a morte, ele encontra novas maneiras de existir nas lembranças e nos vínculos que permanecem”.