O Brasil registrou mais de 470 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais em 2024, o maior número da última década. Diante desse cenário e da entrada em vigor da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-01), que passou a incluir os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), o Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), em João Pessoa, implantou um programa permanente voltado à promoção da saúde mental dos colaboradores, tornando-se uma das instituições paraibanas a estruturar ações alinhadas às novas exigências da legislação.
O São Vicente Conecta é uma iniciativa desenvolvida pelo Ecossistema EducaAMente em parceria com o HSVP, voltada à promoção da saúde mental, e que reúne diagnóstico dos riscos psicossociais, capacitação de lideranças, acolhimento especializado, monitoramento contínuo e elaboração de planos de ação baseados na realidade institucional.
Segundo a psiquiatra Dra. Gabriela Rique, a atualização da NR-01 representa uma mudança histórica na forma como as organizações devem enxergar a saúde do trabalhador. “Pela primeira vez, a legislação brasileira reconhece de forma expressa que a saúde mental é parte indissociável da saúde ocupacional. Cuidar da saúde mental deixa de ser uma iniciativa opcional e passa a ser uma responsabilidade institucional estruturada”, afirma.


Ela explica que os chamados riscos psicossociais dizem respeito à forma como o trabalho é organizado e às relações estabelecidas no ambiente profissional, incluindo fatores como sobrecarga, jornadas prolongadas, comunicação deficiente, conflitos interpessoais, assédio e insegurança profissional.
“Não estamos falando de características da pessoa, mas das condições de trabalho. O risco psicossocial não é um transtorno mental, mas uma condição que pode levar ao adoecimento quando não há medidas de prevenção”, ressalta.
No ambiente hospitalar, esses fatores ganham ainda mais relevância devido à exposição constante ao sofrimento humano, à tomada de decisões complexas e ao desgaste emocional das equipes. Conforme a especialista, profissionais exaustos apresentam maior risco de desenvolver ansiedade, depressão e síndrome de burnout, além de comprometer a qualidade da assistência.
A Dra. Gabriela destaca que o diferencial do programa implantado no Hospital São Vicente está na continuidade das ações.
“O São Vicente Conecta foi concebido como um programa estruturado, e não como um conjunto de iniciativas isoladas. O diagnóstico orienta as prioridades, as capacitações preparam as equipes, o acolhimento oferece suporte aos colaboradores e a governança garante acompanhamento permanente. É assim que transformamos intenção em cuidado concreto”, enfatiza.
O presidente do Instituto Walfredo Guedes Pereira (IWGP), mantenedor do Hospital São Vicente de Paulo, Geraldo Guedes Pereira Filho, afirma que investir na saúde mental dos profissionais está diretamente relacionado à missão institucional da unidade.
“Quem cuida da saúde das pessoas também precisa ser cuidado. A implantação desse programa reforça nosso compromisso com a valorização dos colaboradores e com uma assistência cada vez mais segura, humanizada e alinhada às melhores práticas de gestão e às exigências da NR-01. Cuidar das nossas equipes significa cuidar melhor dos nossos pacientes”, destaca.
Para a psiquiatra, instituições que incorporam a saúde mental à cultura organizacional observam redução do absenteísmo e da rotatividade, melhoria do clima organizacional, maior engajamento das equipes e fortalecimento da segurança do paciente.
“Ambientes de trabalho emocionalmente saudáveis não acontecem por acaso. Eles são construídos com método, continuidade, escuta e compromisso institucional. Quando uma instituição de saúde cuida genuinamente de quem cuida, todos ganham: profissionais, pacientes e sociedade”, conclui.

